Presidente do Conselho Nacional da Abrasel diz que momento pede cautela

Fev/09 - Fabiano Rampazzo - Site Planeta Terra

Ok, os bares vão bem, a Vila Madalena vai bem, mas segundo Joaquim Saraiva, presidente do Conselho Nacional da Abrasel, o momento pede cautela, pois a crise é mundial.

Esperávamos crescer 7% no ano passado, mas crescemos 5% por causa dos meses de novembro e dezembro”, afirma Saraiva. “E neste ano a expectativa de crescimento é de 3%”.

Vale lembrar que os dados se referem não só aos bares, mas também aos restaurantes de todo o Estado. Ainda assim, Saraiva lembra que em São Paulo os meses de janeiro e fevereiro são naturalmente complicados para os bares. “Sem falar que em 2009 fez mais frio e choveu mais do que no ano passado, e sempre por volta das 19h, horário-chave para os bares, quando as pessoas saem do trabalho e de casa”, comenta.

Os números de Saraiva não encontram, porém, quem brinde de volta. Pelo menos para os lados da Vila Madalena. “As pessoas deixam de comprar um carro na crise, ok. Mas não deixam de sair pra jantar, de comer, beber e se divertir. Não mesmo”, afirma Martin Seoane, dono do Che Bárbaro, recém-aberto na rua Harmonia.

Novos bares e reformas milionárias espantam a crise

Crise? Não na Vila Madalena. O tradicional reduto boêmio de São Paulo faz justiça à fama botequeira e resiste bravamente – à base de muito chope e cerveja, é verdade – a qualquer tentativa de processo recessivo. Nos últimos 100 dias, a Vila ganhou pelo menos dez novos endereços e uma de suas casas mais tradicionais, o Jacaré, completou uma reforma de R$ 1 milhão. “Sem crise, com crise, todo mundo come e bebe, não tem jeito”, diz Marcelo Silvestre, também conhecido como Jacaré, dono do tradicional bar e que carrega esse apelido há 18 anos.

No Jacaré, a reforma foi total. Passou pela cozinha, que agora fica à vista dos clientes, foi construído um bulevar para as esperas e o espaço para as concorridas mesas foi ampliado. “Tudo para comemorar o 18° aniversário do bar, este foi nosso presente para ele”, diz Cíntia Camargo, mulher de Marcelo Silvestre e sócia no bar.

Se o investimento assusta em tempos de crise? A resposta é não. “Meu único inimigo aqui é a chuva e o frio”, disse Cíntia. “Se não está frio, com ou sem crise o pessoal vem mesmo”.

Crise? Sai pra lá

O novo Jacaré, uma filial do Bar do Juarez, Bar do Fórum na rua Jericó... Não foram poucos os bares que ergueram as portas e estenderam o tapete de boas vindas aos clientes com a crise já em plena atividade. E não foram poucos os reais investimentos nesses novos negócios também. Encabeça a lista o San Sebastian Gatronomia 24 Horas, que há pouco mais de dois meses ocupa o lugar do antigo Blen Blen, na rua Inácio Pereira da Rocha. O investimento é de R$ 2,5 milhões para oferecer um bar-restaurante de um lado e uma boate do outro.

A boate, que vai se chamar Zhi (pronuncia-se Zarri) será inaugurada em março. “Mas não tem nada a ver com a crise, queremos segurar até março para coincidir com o fim das férias”, disse Ugo Zambon, um dos sócios da Zhi e do San Sebastian. Zambon afirmou que boa parte dos R$ 2,5 milhões foi gasto no equipamento de chope, acoplado diretamente nas mesas do bar. “Cada ponto tem uma chopeira que serve a bebida a -2C°”, explicou.

O empresário tem casas noturnas e bares em Curitiba e é categórico ao afirmar que, também por lá, a crise não fez cosquinhas no setor. “Até agora a crise não me tirou um cliente”, afirmou. “Estamos prestando atenção nela, claro, mas ela não mudou nossos rumos”.

Discurso parecido faz Eduardo Passarelli, um dos sócios do recém-aberto Melograno Empório de Cerveja, na rua Aspicuelta. “Não foi necessária nenhuma mudança brusca de rota, nenhuma demissão, nada disso. As pessoas continuam sempre em busca de entretenimento”, diz o empresário.

Contra a crise, diversão

No fim de 2008, os sócios do Melograno encomendaram uma pesquisa que apontou que as pessoas se presenteiam com entretenimento mesmo em épocas de crise. “Tivemos uma respostas muito positiva a essa questão, mesmo nas vacas magras o sujeito diz merecer tomar a sua cerveja”, revela Passarelli. “Essa informação nos motivou ainda mais a tocar o projeto”. Para o Melograno, o investimento chegou a R$ 700 mil. “Dezembro nos surpreendeu, foi muito bom”, diz Passarelli. “Só que janeiro foi melhor ainda, e fevereiro está sendo ainda melhor! Se eu disser que senti qualquer impacto da crise vou estar mentindo”.

Tudo azul na Mourato

A Mourato Coelho, uma das ruas mais famosas do bairro, tem três novos bares que inauguraram… sim, em meio a tal da crise. O 1° da Vila, o Bar Iemanjá e o Chez Fabrice surgiram nos últimos meses do ano passado e vão muito bem, obrigado. Com investimento de R$ 500 mil, no Chez Fabrice o desempenho até aqui tem agradado e muito. “Como todo novo negócio, por ser desconhecido, começou devagar, mas está bem melhor”, disse Fabrice Delassus, dono do bar-restaurante. O Chez Fabrice funciona também como bistrô francês e fecha um pouco mais cedo que seus concorrentes, por volta da meia-noite.

O Iemanjá e o 1° da Vila ficam um de cara para o outro, ambos na esquina com a rua Wisard. No Iemanjá, o dinheiro investido chegou a R$ 1,2 milhão, e o movimento mais tímido do início deu lugar a uma receita crescente. “Durante a fase de reformas, com tudo encaminhado para abrir o bar, veio de uma vez só a Lei Seca e a crise mundial. Deu medo, vou confessar, mas estava tudo tão bem definido que não precisei alterar meus rumos”, diz Marcelo Lewandowski, um dos sócios do bar.

Receio parecido vivenciou Anariá Olbi Urbano, proprietária do 1° da Vila. “Durante a reforma caíram essa Lei e essa crise nas minhas costas. Mas eu toquei e inaugurei”, conta. “No começo estava um pouco fraco, aí foi crescendo, foi rolando um boca-a-boca, fui conquistando meus clientes e agora está bom”.

Se alguns setores da economia têm sofrido com a falta de liquidez, decididamente não parece ser para os lados da Vila. Ali o problema econômico é o gargalo para escoar a produção. “Estamos indo superbem”, resume Martin Seoane, dono do Che Bárbaro, na rua Harmonia, inaugurado no final de novembro. “O bar está atraindo as pessoas que passam pela rua porque nem investimos em publicidade”. Martin diz ter investido R$ 500 mil na montagem do bar e, mesmo em meio à crise, o projeto andou. “Apostamos no nosso know-how (a família tem um bar na Vila Olímpia, o Barbado) e no estudo que fizemos da região da Vila Madalena vimos um mercado favorável, havia espaço para um bar novo”.

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