Cerveja gelada, sim. Estúpida, não!

Fev/09 - Mauricio Beltramelli (Site Mercado Gastronômico)

Final de uma tarde quente, a garganta seca. Acomodo-me na mesa da choperia e imploro o precioso líquido ao garçom.

E rápido, por favor. Em segundos, o copo materializa-se em minha frente. Gelado. Mas absurdamente gelado.
Levo aos lábios e percebo que a espuma também está praticamente congelada, parecendo milk shake. Sinto até mesmo os cristais de gelo a entrar-me pela garganta enquanto sirvo o primeiro gole. Sim, matei a minha sede. Mas não senti gosto nenhum. Uma água mineral com gás naquela temperatura enregelante produziria o mesmo efeito, com a vantagem de ser mais barata.

No Brasil, criou-se o mito de que cerveja, para ser bem servida, deve estar “estupidamente gelada”, ao ponto de congelamento. Muitos donos de bares colocam freezers verticais de diversas marcas à vista dos clientes,
com termômetros eletrônicos nos quais se anuncia que lá dentro a breja estaria a três, quatro graus negativos (embora se saiba cientificamente que a cerveja vira pedra a -2,5 graus Celsius).

É claro que, nas areias escaldantes das praias brasileiras, num calor de 40 graus, é difícil imaginar beber algo que não seja bem gelado. Todavia, é bom ter em mente (e olha a ciência aí de novo!) que, abaixo de 2 graus Celsius, a temperatura da cerveja é tão fria que amortece as papilas gustativas, as quais são células epiteliais na língua responsáveis pelo sentido do sabor. Portanto, ao beber uma cerveja gelada demais, você pode até se refrescar, mas não sentirá gosto algum. Como disse um Mestre-Cervejeiro amigo meu, “cerveja estupidamente gelada é coisa de
estúpidos”...

Nós, degustadores do site especializado BREJAS (www.brejas.com.br), preferimos consumir um chope (ou cervejas do estilo Pilsen/Pale Lager) em temperaturas que vão de 2 a 5 graus Celsius. Mas a temperatura da cerveja que se vai consumir é determinada por diversos fatores, sobretudo o estilo de cada uma. Vários especialistas de renome mundial propõem uma espécie de “escala” de quatro níveis de temperaturas para bem servir e apreciar uma cerveja, estritamente de acordo com o estilo de cada uma:

1. MUITO GELADA (de 0º a 4° C): Cervejas no estilo Pale Lager, cervejas sem álcool e quaisquer cervejas que tenham como objetivo apenas refrescar, e não de serem degustadas.

2. BEM GELADA (de 5º a 7° C): Nessa escala já encontramos cervejas aptas à atividade degustativa. É ideal para brejas do estilo Pilsner Weizen (trigo) e Bock, dentre outras.

3. GELADA (de 8º a 12° C): Ideal para cervejas nos estilos Lager (escuras), Pale Ale, Amber Ale, Weiss (escuras), Porter, Helles, Vienna, Tripel e outros.

4. TEMPERATURA DE ADEGA (de 13º a 15° C): Somente para as brejas nos estilos Ale Quadrupel, Strong Ale (escuras), Stout e a maioria das cervejas especiais belgas.

Note que as cervejas mais claras e suaves normalmente são servidas mais geladas, enquanto as mais escuras e mais fortes devem ser servidas em temperaturas maiores.

É claro que não se trata de uma regra pétrea. Sequer as escalas de temperatura acima são obrigatórias quando se serve uma breja. Siga-as, ou não. Tudo depende do gosto de quem bebe, do local de consumo e da proposta do momento. Porém, tais dicas são um importante instrumento a fim de que você possa absorver todos os aromas e sabores que o mundo cervejeiro tem a lhe oferecer.

Proibido, de verdade, é deixar de apreciar a boa cerveja!

Por: MAURICIO BELTRAMELLI - Pesquisador de cervejas - http://www.brejas.com.br
e-mail: brejas@mercadogastronomico.com.br

 

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